Mauro Vieira defende plano diplomático de Lula para o Irã e critica EUA
O atual cenário de tensões envolvendo o Irã poderia ter sido evitado se uma iniciativa diplomática liderada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2010 tivesse avançado. A afirmação foi feita pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, durante audiência na Câmara dos Deputados nesta quarta-feira (18).
Vieira destacou que a chamada Declaração de Teerã, articulada na época por Brasil e Turquia, visava impedir o acúmulo de material nuclear enriquecido pelo Irã. Segundo o ministro, a proposta tinha o potencial de evitar a situação de instabilidade que o mundo enfrenta hoje.
A declaração previa o envio de cerca de 1.200 kg de urânio pouco enriquecido do Irã para a Turquia, sob supervisão internacional, em troca de combustível nuclear. A iniciativa, conforme relatado por Vieira, buscava criar um mecanismo de confiança e reduzir o estoque sensível de material nuclear iraniano, evitando sanções e escaladas diplomáticas. No entanto, a proposta foi considerada insuficiente por potências como os Estados Unidos.
O Fracasso da Declaração de Teerã e Críticas aos EUA
Apesar do incentivo inicial do então presidente dos EUA, Barack Obama, por meio de uma carta pessoal a Lula, a Declaração de Teerã não obteve sucesso. O ministro Mauro Vieira comparou a situação com negociações recentes no Oriente Médio, onde, segundo ele, os Estados Unidos abandonaram a mesa de negociações sem explicações claras, optando por ações mais agressivas.
Vieira apontou um padrão de comportamento dos Estados Unidos em processos de mediação internacional, com um recuo após um período inicial de incentivo. Ele ressaltou que a frustração de autoridades de Omã, que atuam como mediadores atualmente, encontra paralelo na decepção brasileira com as negociações de 2010.
Análise Crítica sobre a Efetividade do Plano Brasileiro
O estrategista internacional Cezar Roedel avaliou a Declaração de Teerã como uma iniciativa vista com ceticismo pelas potências globais. Ele a descreveu como uma proposta “fraca, sem poder real de barganha”, devido à ausência de capacidade de pressão estratégica e credibilidade internacional.
Roedel observou que o Irã continuou avançando em seu programa nuclear mesmo após a declaração, indicando um impacto limitado no cenário geopolítico. Ele citou como críticas ao acordo a falta de limitação ao enriquecimento contínuo de urânio pelo Irã e as dúvidas sobre a suficiência da quantidade de material a ser enviado para reduzir riscos.
Histórico de Interferências e Preocupações de Segurança
Mensagens diplomáticas vazadas pelo WikiLeaks indicam que o governo americano já em 2005 percebia manobras do então chanceler brasileiro, Celso Amorim, para dificultar negociações lideradas pelos EUA. Essas ações incluíam esforços na ONU para impedir resoluções contra a proliferação nuclear e pressões para evitar mandados de busca contra iranianos suspeitos em conexão com o atentado à AMIA em Buenos Aires.
Um documento secreto da diplomacia americana de 2008 expressava preocupação com o foco crescente do Brasil no Oriente Médio, coincidindo com esforços do Irã para expandir sua influência na América Latina, incluindo o Brasil, visando formar uma frente contra os Estados Unidos. A Declaração de Teerã, na visão de alguns analistas, não garantiu de forma concreta a interrupção do enriquecimento de urânio nem assegurou inspeções internacionais efetivas, seguindo uma lógica semelhante a outros acordos de baixa efetividade prática.