Médium Acusada de Fraude em Cartas Psicografadas Choca Famílias em Luto
A advogada Maira Rocha, que se apresenta como médium em Brasília, está no centro de uma grave acusação de falsificar cartas psicografadas destinadas a famílias enlutadas. Uma reportagem exibida no programa “Fantástico” revelou depoimentos de pessoas que receberam mensagens com erros e informações facilmente encontradas online, levantando suspeitas de fraude.
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Atualmente, Maira Rocha possui registros policiais em pelo menos cinco estados, com acusações que incluem estelionato, calúnia, difamação e ameaça. Além de sua atuação como médium, ela é servidora do Ministério da Saúde e comanda a Casa da Caridade Inácio Daniel, um centro espírita inaugurado neste ano que atrai cerca de cinco mil pessoas mensalmente.
O centro espírita realiza atividades assistenciais, como distribuição de alimentos e roupas, mas também oferece atendimentos espirituais e as chamadas “cartas consoladoras”, psicografadas pela própria Maira. Essas atividades são mantidas por doações, inclusive de familiares que buscam conforto. Uma prática questionada foi a realização de leilões de objetos usados pela médium em suas sessões, o que diverge dos princípios de desinteresse pregados pela doutrina espírita, segundo Jorge Godinho, presidente da Federação Espírita Brasileira.
Famílias Relatam Desconfiança e Erros nas Mensagens
O programa “Fantástico” apresentou o testemunho de Marina Escames, que buscou Maira após a morte do marido para obter uma mensagem para o filho. Antes da sessão de psicografia, Marina e seu acompanhante precisaram fornecer dados pessoais detalhados, incluindo nomes completos e CPFs. Maira chegou a perguntar o nome completo do falecido, a causa da morte e solicitou uma foto, coletando diversas informações.
Inicialmente, Marina acreditou na autenticidade da carta, reconhecendo detalhes da vida com o marido. A dúvida surgiu quando seu filho mais velho acessou as redes sociais do pai e notou semelhanças impressionantes com o conteúdo da mensagem recebida. “Eu entrei e acabei vendo muita semelhança em relação à carta. E aí na hora eu chamei a minha mãe e falei: ‘Mãe, olha, tá tudo aqui!'”, relatou o jovem.
Outra testemunha, Marcela Magalhães, também desconfiou das mensagens atribuídas ao seu filho Henrique, falecido em um acidente de carro aos 18 anos. Durante uma live, Maira afirmou estar com Henrique, descrevendo-o como um “jogador de futebol que desencarnou muito cedo”. No entanto, Henrique nunca foi jogador profissional. Marcela posteriormente encontrou uma reportagem sobre a morte do filho que continha a mesma informação incorreta.
Especialistas Alertam Sobre Coleta de Informações
Especialistas ouvidos pela reportagem explicaram que as informações pessoais fornecidas antecipadamente podem ser utilizadas para coletar dados sobre as pessoas e seus familiares falecidos na internet. “Com essas informações é possível fazer uma varredura nos bancos de dados que existe na internet, elaborar um dossiê sobre aquela pessoa e sobre possíveis parentes desencarnados que podem ter as suas informações transmitidas”, detalhou o escritor e pesquisador espírita Pedro Camilo.
Jorge Godinho comparou essa prática com a de Chico Xavier, que não solicitava dados pessoais e recebia mensagens de espíritos sem qualquer informação prévia. “Ele não sabia quem estava. Ele não tinha CPF, não tinha endereço, nada disso. Porque o telefone ele toca do alto para cá”, explicou Godinho, ressaltando a diferença entre a atuação de médiuns sérios e as práticas questionadas.
Investigações e Acusações Criminais
Além das acusações por parte das famílias, Maira Rocha enfrenta processos na esfera policial e judicial. Sete lideranças espíritas assinaram um manifesto e apresentaram uma notícia-crime por estelionato, charlatanismo e possível violação do Estatuto da Criança e do Adolescente. O Ministério Público também investiga acusações de apropriação indébita, desvio de recursos e uso de influência com servidores públicos.
O advogado criminalista Luiz Henrique Machado explicou que o estelionato, neste caso, se configura ao instrumentalizar a fé, enganando as pessoas com a promessa de informações extraordinárias, quando na verdade utiliza dados obtidos em bancos de dados e na internet para criar cartas psicografadas falsas. Maira Rocha foi procurada pela reportagem, mas recusou-se a gravar entrevista.
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