Marechal Rondon: O Gênio Militar e Humanista Cujo Legado Desafia o Tempo e a História Brasileira
A história do Marechal Cândido Rondon é uma tapeçaria rica em feitos grandiosos e dilemas complexos. Desde a épica expedição pelo desconhecido Rio da Dúvida ao lado de Theodore Roosevelt, até sua incansável luta pela proteção e integração dos povos indígenas, Rondon se destaca como uma figura ímpar na formação do Brasil. Sua visão de um país unificado, onde as diversas etnias pudessem coexistir e prosperar, moldou sua trajetória, mas também o colocou em rota de colisão com a realidade e os interesses de seu tempo.
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Apesar de sua importância inegável, o legado de Rondon muitas vezes reside nas sombras, eclipsado por narrativas mais populares ou por revisões históricas que tentam encaixá-lo em moldes contemporâneos. No entanto, compreender sua obra é fundamental para entender as raízes de muitas questões sociais e territoriais que persistem até hoje no Brasil. Sua filosofia, baseada no positivismo e na crença de que a ciência traria ordem e progresso, o guiou em suas missões.
Ao longo de décadas, Rondon desbravou o território nacional, estabelecendo linhas telegráficas e mapeando regiões inexploradas, sempre com o respeito e a proteção dos povos indígenas como um pilar de sua atuação. A expedição ao Rio da Dúvida, em 1914, onde dividiu o comando com o ex-presidente americano Theodore Roosevelt, é um exemplo vívido de sua coragem e determinação, um feito geográfico que marcou o século e revelou ao mundo a vastidão e os mistérios da Amazônia brasileira. Conforme relato de Larry Rohter, a expedição custou três vidas, mas resultou no mapeamento de cerca de 760 quilômetros de um rio desconhecido.
O Desbravador do Sertão e o Legado de “Morrer, se preciso for, matar, nunca”
Nascido em 1865 no Mato Grosso, Cândido Rondon teve uma infância marcada pela pobreza e pela perda precoce dos pais. Órfão, foi criado por um tio e encontrou no Exército o caminho para a educação e para a Escola Militar do Rio de Janeiro. Lá, sob a influência do positivismo de Benjamin Constant, Rondon desenvolveu a fé na ciência e no progresso, ideais que norteariam toda a sua vida.
Sua carreira militar o levou a liderar a construção de linhas telegráficas que visavam integrar o oeste brasileiro ao litoral. Nesse árduo trabalho, que o manteve décadas longe de sua família, Rondon forjou seu lema: “morrer, se preciso for, matar, nunca”. Essa filosofia foi posta à prova em 1908, na terra dos Nambiquaras, quando foi alvo de flechas, mas optou por não retaliar, buscando o diálogo e a confiança. Essa postura ética, que lhe rendeu uma indicação ao Prêmio Nobel da Paz por Albert Einstein em 1925, demonstrava sua visão humanista à frente de seu tempo.
O Serviço de Proteção aos Índios (SPI) e a Complexa Visão de Integração
Em 1910, Rondon assumiu a direção do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), impondo condições rigorosas, como a garantia da posse das terras indígenas. Sua proposta era a de uma assimilação gradual e respeitosa, onde os povos originários se tornassem “irmãos” e se incorporassem à sociedade brasileira de forma espontânea. Ele acreditava que, ao conquistar a afeição e a confiança, seria possível que eles, por vontade própria, se integrassem à civilização.
No entanto, a realidade se mostrou mais cruel. Os arquivos do SPI revelaram a invasão de terras, epidemias devastadoras e a corrupção que assolou o órgão, levando à sua extinção em 1967. A visão de Rondon, de um “índio como irmão”, ficou, em grande parte, no papel. O próprio Marechal, por volta de 1940, já manifestava dúvidas profundas sobre o projeto, evidenciando a complexidade de suas convicções diante das contradições do Brasil.
O Legado Rondoniano em Disputa: Entre a Integração e a Autodeterminação
A ditadura militar utilizou o lema de Rondon, “integrar para não entregar”, para justificar seus projetos na Amazônia, apropriando-se de seu vocabulário para fins questionáveis. A esquerda, por sua vez, reivindicou sua figura pela causa indígena, celebrando-o como fundador da Funai. O Projeto Rondon, relançado em 2005, também carrega seu nome, mas a Constituição de 1988 consagrou um princípio oposto ao de Rondon, garantindo aos povos indígenas o direito à sua identidade e às suas terras demarcadas.
O revisionismo acadêmico dos anos 1990 chegou a descrever Rondon como um agente de projeto predatório, mas o antropólogo Mércio Pereira Gomes, ex-presidente da Funai, defendeu que as críticas cobram de Rondon uma visão que só o conhecimento posterior tornou possível, ressaltando sua atitude ética sem precedentes para a época.
O episódio de 1914, com a expedição ao Rio da Dúvida, resume a complexidade de Rondon. Um oficial brasileiro desceu um rio desconhecido, acompanhado pelo homem mais famoso do mundo, e retornou com o mapa, o nome do estrangeiro dado ao rio e o assassino poupado da vingança exigida pelo ex-presidente americano. Rondon morreu em 1958, aos 92 anos, recitando o catecismo positivista. Sua vida, como escreveu Manuel Bandeira, é um conforto para “todo brasileiro que ande descrente de sua terra”. Seu legado, embora disputado, continua a inspirar reflexões sobre o Brasil que queremos construir.
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